Aula 4: Margens
No vídeo anterior aprendemos a calcular e interpretar os múltiplos das Vendas e dos Lucros, ou seja, o Price to Sales Ratio (PSR) e o Price to Earnings Ratio (PER).
Vimos que o PER se calcula dividindo o Valor de Mercado pelo Lucro Anual, porém podemos calculá-lo de outra forma equivalente:
PER = Cotação / Lucro por Ação
O que fizemos foi dividir o numerador e o denominador pelo Nº de Ações emitidas pela empresa. “Lucro por Ação” em inglês diz-se Earnings per Share (EPS).
O Earnings per Share é o Lucro que cabe a cada ação e não é muito relevante se esse lucro é distribuído pelos Acionistas ou se fica na empresa, que como vimos no primeiro vídeo pertence aos Acionistas.
O EPS é a variável que melhor consegue explicar os movimentos de longo prazo das cotações das ações.
Quando o Lucro por Ação da empresa está em crescimento o próprio PER costuma expandir-se, acontecendo um duplo efeito positivo: a cotação sobe porque o Lucro aumentou e sobe mais um bocado porque o múltiplo atribuído a esse Lucro se expande.
Inversamente, quando o EPS exibe uma tendência descendente, as cotações vão descaindo porque cada ação está a lucrar menos (logo vale menos), mas também porque o PER se contrai. Novamente um duplo efeito, desta vez negativo.
É por causa destes efeitos duplos que as cotações normalmente variam mais do que aquilo que seria expectável ou explicável pelas mudanças nos fundamentais: quando o Lucro sobe os investidores ficam otimistas e quando desce sentem-se pessimistas. Estes estados de espírito são subjetivos, mas que que afetam as cotações, disso não restam dúvidas.
O volume de Vendas anual (top line) é relevante, mas o Lucro (bottom line) é muito mais importante para os investidores. É caso para dizer que, em termos gerais, se o Lucro da empresa subir o seu Valor de Mercado subirá, e se o Lucro da empresa diminuir o seu Valor de Mercado descerá.
As mudanças no Lucro anual são o principal fator explicativo dos grandes movimentos das cotações, existindo uma correlação muito positiva entre o EPS e a cotação.
E o que é que faz mudar significativamente o Lucro anual? Pode ser o aumento ou diminuição das Vendas, mas também pode ser outra coisa: expansão ou contração das Margens de Lucro!
Margem de Lucro é aquilo que a empresa Lucra divido pelas Vendas e mede-se em percentagem. Existem vários tipos de Lucro e de margens de lucro: a margem bruta, a margem EBITDA, a margem operacional e a margem líquida. Aqui no mini-curso de Ações vamos tratar apenas da margem líquida, que se calcula assim:
Margem Líquida = Resultado Líquido / Vendas
Normalmente é expressa em percentagem. Vejamos rapidamente dois exemplos, primeiro de uma empresa pouco lucrativa, a DEF, que lucra 2 M€ e vende 100 M€/ano:
Margem Líquida da DEF = 2 M€ / 100 M€ = 2%
A DEF lucra apenas 2 cêntimos por cada 1 euro de Vendas, é uma empresa apenas marginalmente lucrativa e por tal dificilmente será muito valorizada pelos investidores.
Segundo exemplo:
Margem Líquida da GHI = 200 M€ / 1 000 M€ = 20%
A GHI já lucra 20 cêntimos por cada 1 euro de Vendas, é uma empresa muito lucrativa e por tal poderá ser bastante apreciada pelos investidores.
Agora podemos trocar as voltas e ver a questão de outro prisma, correndo o risco de gerar confusão: a DEF não atrai concorrência, enquanto que a GHI atrai. Se a GHI não tiver erguido barreiras à entrada… estará vulnerável.
Voltando à Margem Líquida, repare-se que, mesmo mantendo o mesmo nível de Vendas, é possível que o Lucro duplique ou triplique ou varie ainda mais, derivado de mudanças na margem líquida. Se a margem líquida de uma empresa se expandir dos 2% para os 10%, o seu Lucro terá quintuplicado e provavelmente o seu Valor de Mercado … também!
Corolário: O Lucro pode mudar de forma dramática não porque a empresa venda mais ou menos, mas devido a mudanças na Margem Líquida!
Normalmente o que acontece é que quando as Vendas sobem, a Margem Líquida e o PER também se expandem, ou seja, temos aqui um triplo efeito a impactar positivamente a cotação.
E quando as Vendas descem, normalmente desce a Margem Líquida e o PER contrai-se … tripla desgraça!
No entanto, quando a gestão é muito competente e flexível, pode conseguir reagir a uma quebra nas Vendas cortando mais que proporcionalmente os Custos, mantendo o nível de Lucro anual mais ou menos estável … nesses casos as Vendas descem, mas a Margem Líquida sobe, o que constitui uma divergência positiva para os investidores de longo prazo.
Até aqui temos vindo a avaliar as empresas principalmente por aquilo que elas lucram (que é o que faz mais sentido), porém existem outras correntes e indicadores de Análise Fundamental que também é importante conhecermos. No próximo Vídeo vamos aprender como se analisa o Balanço de uma empresa.
Até lá, caso tenha interesse em testar o que aprendeu, faça o Quiz.