“Shorting” e o lendário Short Squeeze da VW

Fábrica da Volswagen

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Já ouviu falar em Short Squeeze, Shorting ou “Shortar” determinada ação? Há um ano atrás foi o que aconteceu à GameStop, short squeeze muito mediático por tido origem num grupo de utilizadores do Reddit. Mas o que é afinal um short?

Short (posição curta): tomada de posição em que um investidor obtém, por empréstimo, ações de determinada empresa, tendo que as restituir mais tarde. A lógica do investidor é a da desvalorização da cotação, que permitirá um lucro na operação. Explicamos com um exemplo:

Suponha que a empresa XPTO, cotada a 50€ por ação, tem acumulado prejuízos atrás de prejuízos e os seus fundamentais estão em forte declínio, sendo expectável uma desvalorização da empresa, logo, da cotação.

Se o Investidor decidir “shortar” a XPTO, adquirindo uma posição curta de 100 ações, o Investidor irá obter, por exemplo por empréstimo da sua corretora, as tais 100 ações. Ou seja, o Investidor ficou com um crédito de 100 ações da XPTO, que terá que devolver mais tarde.

Mas, por ora, o Investidor pode simplesmente vender no mercado as 100 ações “emprestadas”, encaixando 5000€ (50€ por ação). Se, entretanto, a XPTO desvalorizar para 10€ por ação, o Investidor regressa ao mercado, adquire as 100 ações que precisa, pelo valor de 1000€, as quais devolve à corretora, assim fechando a sua posição curta. Nesta operação, o Investidor encaixou 4000€ (5000€ – 1000€).

Agora note: o lucro máximo possível numa posição curta é de 100% (na verdade, 99,999%), quando a desvalorização da empresa alvo é quase total. No entanto, o prejuízo máximo é ilimitado! Porque se há um máximo de desvalorização das ações de uma empresa, no lado oposto não há limite, ou seja, a valorização potencial é ilimitada!

Pegando no exemplo anterior, se a cotação da XPTO tivesse valorizado de 50€ para 500€ por ação, o Investidor teria que comprar as mesmas 100 ações ao mercado para fechar o seu short: 100 * 500 = 50 000€. Portanto, em vez de 4000€ de lucro, o Investidor teria tido um prejuízo de 45 000€ (5000€ – 50 000€ = -45 000€)!

“Shortar” uma ação, ou outros produtos financeiros, é uma prática comum, mas que consideramos inadequada ao Investidor. Nada melhor que um caso real para ilustrar:

Corria o ano de 2008 e o Mundo ainda digeria o colapso da Lehman Brothers, no início daquela que ficou conhecida como a Crise Financeira… Por essa altura, a empresa de maior capitalização bolsista mundial era a Exxon Mobil, gigante petrolífera (hoje na 25ª posição).

Dois anos antes, em 2006, a Porsche anunciara que pretendia aumentar a sua posição na Volkswagen (VW), tornando-se acionista maioritário da empresa. Durante dois anos a Porsche foi aumentando a sua posição na VW e, já em Março de 2008, com uma posição de 31%, a Porsche formalizou que pretendia chegar aos 75%, efetivamente tomando controlo da VW. Importa explicar o porquê do anúncio público feito pela Porsche, que levou inclusive  a posterior investigação do BaFin (regulador do mercado alemão) sobre eventual manipulação de mercado.

No seu comunicado, ao declarar a intenção de adquirir 75% das ações em circulação da VW, a Porsche relembrou que 20% do capital estava sob controlo do governo do estado alemão da Baixa Saxónia, pelo que seria muito improvável que conseguisse comprar no mercado a dita posição de 75%, o que deixaria apenas 5% das ações em circulação.

De referir que a VW era, em 2008, uma ação com muito interesse “short”: os fracos resultados da construtora automóvel, somados ao instalar da crise financeira, que prejudicaria ainda mais as operações da empresa, haviam levado à percepção de que as ações da VW estavam caras, com vários Fundos de Investimento a “shortar” a VW, na forte expectativa de desvalorização das ações.

E eis que chegamos a 26 de Outubro de 2008, um mês depois do colapso da Lehman Brothers, quando a Porsche emite novo comunicado, no qual declarou que havia aumentado a sua posição na VW para 42,6%, detendo ainda opções convertíveis para outros 31,5%, e que queriam de facto atingir uma posição de 75% na VW, à data a terceira maior construtora automóvel do Mundo. A Porsche justificou a necessidade desse comunicado com o facto de terem ficado surpreendidos com a quantidade de posições short na VW (12,8% da capitalização bolsista da VW estava “shortada”), pelo que o anúncio público permitiria aos investidores com posições curtas a oportunidade de se desfazerem atempadamente da sua posição, evitando fortes prejuízos.

E eis que se instalou o pânico nos investidores! Ao ser divulgado que apenas 6% das ações estavam disponíveis no mercado, a procura por ações da VW para “fechar os shorts” esmagou a oferta e levou a cotação a subir de 210,85€ por ação para mais de 1000€, em menos de 48h, tornando temporariamente a VW a maior empresa (por market cap) do Mundo, superando a valorização de 343 mil milhões de dólares (billions, em notação americana) da Exxon Mobil.

O BaFin, regulador alemão, iniciou uma investigação por possível manipulação de mercados pela Porsche, que a empresa rejeitou, alegando que anunciara atempadamente toda a informação necessária para que os especuladores na VW regularizassem as suas posições.

No dia seguinte, 29 de Outubro de 2008, a Porsche vendeu 5% da sua recém-adquirida posição nos mercados, permitindo aos especuladores fechar algumas posições curtas e acalmando a turbulência em redor da sua aquisição.

No entanto, o mal estava feito… Naquele que foi apelidado “the mother of all short-squeezes”, os prejuízos de posições curtas na VW estimaram-se em 30 mil milhões de euros!

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