O que é que eu gosto de ver num intermediário financeiro?

intermediario financeiro - corretora

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Em primeiro lugar, gostaria de referir que a empresa que dirijo não faz qualquer intermediação financeira, apenas criamos conteúdos informativos e educacionais sobre o mercado de ações.

Em segundo lugar, não somos associados, nem afiliados, nem patrocinados por qualquer intermediário financeiro.

Várias vezes fomos abordados por corretoras com propostas de patrocínio/publicidade, mas recusámos porque quisemos preservar a nossa independência, pelo que nunca recebemos qualquer receita ou comissão de um intermediário financeiro.

Estou então numa posição de neutralidade face a todas as corretoras e bancos, o que me permite emitir uma opinião isenta.

O que é que eu gosto de ver num intermediário financeiro?

1º – Modelo de negócio transparente

Ao analisar os serviços prestados por um intermediário financeiro, preciso de perceber exatamente como é que o serviço é financiado e de que forma é que ganham dinheiro. Não adianta publicitarem só vantagens para os clientes – tipo “comissão zero” – omitindo os custos, que por vezes são opacos e indiretos;

2º – Interesses alinhados com os dos clientes

O fator de maior alarme num intermediário financeiro é quando os seus interesses são contrários aos dos clientes e isso não é tão raro como se possa pensar à partida.

As corretoras de Forex e CFDs, por exemplo, operam num claro conflito de interesses com os seus clientes, pois atuam como contraparte das transações dos clientes. Quando os clientes compram, quem vende é a corretora e quando os clientes vendem, quem compra é a corretora, no seu sistema interno, que não é o mercado real. As ordens dadas neste género de corretoras na maioria dos casos são executadas internamente e nunca chegam ao mercado real.

Esta realidade – que pode ser confirmada por quem se der ao trabalho de ler as letras pequeninas dos formulários de abertura de conta nessas “corretoras” – faz com que estas “corretoras” ganhem quando os clientes perdem e percam quando os clientes ganham.

Com este modelo de negócio as “corretoras” têm um incentivo económico para prestar um mau serviço, a ver se os clientes perdem, e quanto mais depressa… melhor.

Algumas estratégias praticadas por este género de intermediário financeiro tem a ver com a permissão de alavancagens absurdas (tipo, 200 para 1, em que com uma variação negativa de 0,5% o cliente perde tudo – e eles encarregam-se de garantir essa variação negativa), o alargamento do bid/ask spreads em situações críticas, o disparar de stop losses apenas no sistema interno da corretora para “lixar” o cliente, etc.

Pode não ser na primeira, nem na segunda transação, mas eventualmente, no médio prazo, a corretora, ou melhor apelidada casa de apostas, ganha sempre, a não ser que subitamente o cliente desperte para a realidade e feche a conta quando se apanhar a ganhar.

Mesmo nestes casos já vi acontecer as “corretoras” dificultarem a transferência do dinheiro e aliciarem com novas transações, a ver se o cliente fica no jogo… até perder.

Se o seu intermediário financeiro for daqueles que aliciam para transações em Forex e CFDs… cuidado.

Pessoalmente aprecio que os bancos/corretoras com que trabalho se foquem nos mercados tradicionais das ações e obrigações e ganhem através de comissões de transação.

3º – Negócios reais

Eu sinceramente nem me estava a lembrar deste risco, mas ultimamente têm surgido situações inacreditáveis em que um intermediário financeiro, simplesmente… não existe!

É apenas um site na net… as pessoas põem lá o dinheiro, compram uns ativos financeiros (ou pensam que compram), mas qual quê, não há ali nada, o dinheiro desapareceu, foi roubado 😡

Um caso bastante conhecido é o da AG Markets (reportagem) em que investidores de todo o mundo, incluindo bastantes portugueses, foram roubados e ficaram sem nada, mas imagino que não seja caso único. Aqueles anúncios que apareciam a dizer “ganhe dinheiro com a Amazon” e “ganhe com as ações dos CTT” eram altamente suspeitos, por exemplo.

Convém confirmar que o intermediário financeiro existe mesmo, se possível fisicamente. Eu quando fui a Amesterdão uma das primeiras coisas que fiz foi ir à sede da corretora DEGIRO. Era um sábado, pelo que estava fechada, mas estive à porta do edifício, que é a torre Rembrandt:

SEDE CORRETORA DEGIRO
Ao lado havia outro edifício, de dimensão semelhante, que era a sede da Philips. Não havia dúvidas que a corretora existia mesmo.

4º – Comissões fixas e competitivas

Quando eu era um trader de curto prazo nos futuros – parece que foi noutra vida – era muito importante que as comissões de corretagem fossem muito baixas, porque fazia várias transações por dia.

Agora que sou um investidor de longo prazo em ações, faço poucas transações, pelo que o valor pago em comissões de corretagem perdeu relevância.

Mas há aqui uma ressalva: para montantes grandes, tipo, 20.000 € por transação, é um pouco indiferente pagar 1 € ou 15 € por uma transação, mas para montantes pequenos, tipo 200 €, já será muito relevante… no primeiro caso a comissão representa 0,5%, no segundo são 7,5%. Isto para comprar, para vender terá de pagar novamente.

Para montantes grandes é preferível que o intermediário financeiro tenha uma estrutura de comissões fixa e não é muito relevante se são 5 € ou 15 € por transação.

Para montantes pequenos seria preferível uma estrutura de comissões “à antiga”, que era uma percentagem do montante transacionado, tipo, 0,25%.

O que acontece atualmente em algumas corretoras é usarem as “comissões zero” como fator de atração de clientes… nestes casos é preciso voltar ao passo 1 e perceber como é que a corretora vai ganhar dinheiro, qual é o seu modelo de negócio?

Por exemplo, na DEGIRO ganham dinheiro com o câmbio na compra de ações americanas, 0,25% por transação… é como se a comissão de corretagem fossem os 0,25%.

Noutras é atraindo os clientes para investimentos em ações e depois, progressivamente, ir aliciando com “investimentos” em CFDs, que é onde está o ganho (total) da “corretora”.

Outros bancos/corretoras, tipo BancoInvest, Carregosa, BIG, etc, praticam comissões razoáveis, entre os 5 € e os 10 € por transação.

Bancos mais comerciais, como a CGD, Santander, BPI, Montepio têm comissões mais elevadas (tipo, entre 8 € e 20 €), mas são alternativas viáveis para investidores com alguma dimensão, que façam transações superiores a 1.000 € de cada vez.

5 – Todas as Ações

Alguns bancos/corretoras têm uma lista de ações que podem ser negociadas e nessa lista… faltam muitas ações!

Só gosto de trabalhar com bancos/corretoras que tenham TODAS as ações disponíveis, europeias e americanas, ou pelo menos todas as que são negociadas na Euronext, Bolsa de Madrid, NYSE e Nasdaq, incluindo small e micro caps.

6 – Sistema user friendly

Pessoalmente não preciso que o intermediário financeiro tenha cotações online, ou gráficos evoluídos, ou notícias, ou research, porque obtenho tudo isso em serviços especializados.

Mas é natural que muitos investidores apreciem que as corretoras prestem este género de serviços auxiliares.

Para mim o que é essencial é que o sistema de colocação de ordens seja user friendly, no computador e no telemóvel.

Para finalizar  gostaria de dizer o seguinte: em 26 anos de estudo e investimentos em ações, passando por três crises mais relevantes (dot.com bust, crise financeira e corona crash) nunca conheci um investidor em ações que tivesse perdido dinheiro por falência de uma corretora.

Reparou no sublinhado? Agora em maiúsculas: EM AÇÕES, que são títulos que representam a propriedade de empresas.

Se comprou as ações, elas são suas, independentemente do intermediário financeiro em que estão depositadas e independentemente de estarem em seu nome ou em street name, que é como quem diz, numa conta em que estão agrupadas ações de muitos investidores.

Ao ter ações, você tem partes de empresas que não têm nada a ver com o seu intermediário financeiro. Se a corretora ou banco for à falência, as suas partes de empresas, as suas ações, continuam a ter o mesmo valor e continuam a ser suas.

As ações não são uma claim em relação aos ativos da corretora, não têm nada a ver com isso. Na prática, nas raras ocasiões em que uma corretora foi à falência, ou foi absorvida por outra instituição financeira maior e mais sólida, ou as ações dos clientes foram transferidas para outro intermediário financeiro. Tipo, você tinha ações na corretora ABC, que foi à falência e as suas ações passaram para a corretora XYZ, que continuará a servi-lo. Não perdeu nada.

Ainda um detalhe: o tão proclamado fundo de garantia de depósitos só serve para os montantes que tiver em dinheiro nas corretoras… no caso das ações isso não é preciso. Pode ter 5 milhões de euros em ações numa corretora que vai à falência (é raro, muito raro, porque antes disso os reguladores tratam da sua integração noutra instituição) e o fundo de garantia de depósitos só cobrir, tipo, 25 mil euros, que fica na mesma com os 5 milhões de euros em ações… as ações são suas e valem o que valem.

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